Adolescente grávida e Postura em Ginecologia


No último exemplar do milênio II de Conciencia Latinoamericana, uma revista das Católicas pelo Direito a Decidir, organização com fins educativos e de promoção de idéias na América Latina e nos Estados Unidos da América do Norte, apoiando o direito a uma atenção legal de saúde reprodutiva, especialmente para o planejamento familiar e o aborto, o editorial aborda a questão do ensino da sexualidade: Pode-se ensinar a sexualidade como se ensina geografia ou matemática? A razão dessa pergunta é que a educação sexual constitui uma realidade complexa. Essa complexidade é tão grande que se pode questionar a existência de uma matéria isolada de sexualidade incluída dentro da educação formal dos jovens.
De fato, se a sexualidade faz parte do estilo e da qualidade de vida dos indivíduos, integra a personalidade e constitui parte integrante do ser humano desde o nascimento até a morte, ela não pode ser educada como algo dissociado da própria existência. A sexualidade realiza e gratifica mas pode ser uma fonte de sofrimento e de opressão do ser humano. Essa é a realidade que marca as mulheres na sua evolução biológica, ao mesmo tempo que a mídia impregna a humanidade de mensagens libidinosas e utiliza o prazer sexual para canalizar as necessidades para o consumo.
Além das boas intenções, a educação sexual que se recebe por ação ou omissão da culpa, da vergonha e medo do castigo funciona como um fator repressor da potencialidade do ser humano, principalmente da mulher. Se a sexualidade constitui um relacionamento entre seres humanos, ela não pode ser educada como algo isolado, mas para o relacionamento. Esse relacionamento deve ser sadio, recíproco, que fornece como complemento uma sexualidade sadia e gratificante.
Um dos grandes obstáculos da formação sexual católica dos jovens tem sido o fato de privilegiar a relação, porém com abstração da sexualidade, da sensualidade, do corpo. Se exige a abstinência dos jovens e o matrimônio para a realização de sua sexualidade. Mas, a realidade dos jovens do perimilênio é outra. Esse tipo de proposta somente leva à dissociação entre sexualidade e vida, com riscos físicos e emocionais.
Na atualidade, a gravidez e a maternidade da adolescente fazem parte da realidade social da maior parte do mundo. Pelo menos na América Latina essa realidade é agravada pela paternidade também adolescente na maioria das vezes e que não assume responsabilidades.
As leis, a religião, a cultura, impõem à menina, desde o início de sua socialização, através da mídia, da educação, a família, o mandato patriarcal do gênero (que vem de Santo Agostinho) postulando que a maternidade é o seu único destino. A menos se realizem alterações profundas necessárias para uma vida humanizada, a vivência da sexualidade prazerosa e essencialmente boa, e também da maternidade-paternidade como uma aventura digna de ser vivida plenamente quando a maturidade pessoal e do casal for adequada, continuarão sendo uma utopia.
Neste perimilênio uma dos marcos mais importantes da humanidade é a consciência de que o ser humano tem direitos sexuais e direitos reprodutivos, e também de que os adolescentes têm direito ao prazer e ao afeto dentro da vivência plena da sexualidade. É verdade que a sexualidade dos adolescentes tira a tranquilidade dos adultos a tal ponto que os fundamentalistas só admitem o direito de decisão dos pais. Mas, na realidade, os pais nunca decidem. Os pais controlam, reprimem, aconselham, mas somente os jovens decidem. Infelizmente, a decisão frequentemente é feita em péssimas condições, sem planejamento, sem informação e sem acesso aos serviços de saúde, comprometendo o seu projeto pessoal, o seu corpo e a sua vida.
O desejo do autor do editorial de Conciencia Latinoamericana, que seguramente é compartilhado pela maioria dos adultos, é de que a liberdade, o respeito aos diferentes, a justiça, a democracia, a alegria de viver permeie a Igreja deixando para trás as repressões e as culpas como parte da história. Pode-se acrescentar que a também a sociedade deve finalmente assumir o que a mídia propaga; assumir não somente no que diz respeito ao consumo, mas também no que explicitamente pensa e mostra sobre a sexualidade. Caso contrário, a esquizofrenia social continuará, infelizmente, com todas as consequências do dia-a-dia.

Referências bibliográficas

Editorial. Jóvenes. Consciencia latinoamericana 1999; 11(3): 3 (http://www.geocities.com/catolicas/conciencia/dic99/editorial.html).normal na vida adulta.

A interação entre o ginecologista e o fisioterapeuta na prevenção e no tratamento das alterações posturais

Odete de Fátima Sallas Durigon (*)
Adriana Halbe (**)
Hans Wolfgang Halbe (***)

(*) Fisioterapeuta. Neurofisiologista. Professora do Curso de Fisioterapia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
(**) Fisioterapeuta. Especialização em Fisiologia do Exercício, Curso de Fisioterapia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.
(***) Professor associado de Ginecologia, Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo.

Unitermos: dor vertebral, alteração postural, condicionamento físico,
menopausa, equilíbrio


No seu papel de médico primário da mulher, o ginecologista otimiza o tratamento das queixas das pacientes utilizando-se da interconsulta com profissionais de outras áreas. Assim, é comum atender pacientes que se queixam de vertigem e desconforto ou dores recidivantes da coluna, sem haver anormalidade aparente ao exame físico. O encaminhamento para um fisioterapeuta possibilita o diagnóstico e o tratamento causal do processo responsável pelo quadro clínico. Nesses casos, um dos diagnósticos mais comuns feitos pelo fisioterapeuta, após excluir outras hipóteses, é de um quadro sindrômico desencadeado por uma alteração postural, que deve ser adequadamente tratada.
O tratamento postural deve levar em consideração não apenas o sistema músculo-esquelético, mas também os mecanismos neurais envolvidos no controle do movimento, do equilíbrio e da postura, porque a manutenção da postura normal depende dos 2 sistemas: o sistema músculo-esquelético, que é o sistema efetor e o sistema nervoso central, que é o sistema controlador.
Em geral, o sistema controlador é o principal responsável pelos desajustes posturais. Assim, além de tratar os aspectos puramente músculo-esqueléticos, o fisioterapeuta deve intervir nas respostas posturais adaptativas utilizadas pelo sistema nervoso para manter a orientação e a estabilidade do corpo na conservação da postura.
Capacidade de orientação e equilíbrio são elementos determinantes no controle postural. A orientação é o ajuste da cabeça e dos diferentes segmentos do corpo na vertical, enquanto que o equilíbrio é a capacidade de promover os ajustes corporais com a finalidade de manter estável a relação entre o centro de massa corporal e a base ou polígono de sustentação.
A postura ortostática depende da manutenção da projeção do centro de gravidade do corpo, localizado próximo à face anterior da terceira vértebra lombar, dentro do estreito polígono de sustentação, representado pela planta dos pés e pela região que os separa. Os pés, portanto, devem suportar e equilibrar o peso total do corpo na pequena superfície representada pelo polígono de sustentação. Para realizar essa função, o cérebro precisa integrar numerosas informações em tempo real para ajustar os diferentes tipos de desequilíbrios a que o ser humano está sujeito: desde os desequilíbrios decorrentes da utilização de calçados incorretos até as instabilidades geradas pelo desequilíbrio da força muscular, tanto em condições estáticas como em condições dinâmicas.
Assim, quaisquer que sejam os achados morfológicos indicando que uma postura é aparentemente incorreta, do ponto de vista do sistema nervoso, a postura está ajustada apesar de não necessariamente constituir o melhor alinhamento possível. Obviamente, o fato da postura estar ajustada em relação à orientação e estabilidade, não significa que o indivíduo esteja apresentando uma postura que possibilita uma performance neuromuscular de máxima eficiência.
Com base nesses conceitos, o fisioterapeuta deve, pois, intervir no agente causal e também nas conseqüências dessas síndromes posturais, sem desprezar os conceitos de controle neural da postura e do movimento. Se a causa estiver no sistema de equilíbrio, o órgão organizador do mecanismo efetor da postura ortostática, a intervenção é feita nesse sistema. Contudo, em geral, a intervenção é sempre bilateral, interferindo no circuito ação-reação. A intervenção corrige a postura ortostática incorreta e vai se refletir no controle da postura dinâmica, ou seja, na marcha e nos demais tipos de performance física.
É preciso lembrar que em alguns casos, a simples recomendação de realizar caminhadas como parte da orientação higieno-dietética do climatério e da pós-menopausa, embora traga os benefícios circulatórios e respiratórios pretendidos, pode desencadear sintomas até então ausentes na postura ortostática ou mesmo nas atividades diárias de natureza leve. Ao submeter a postura a um agente estressor como, por exemplo, a execução de uma atividade que a pessoa nunca realizara até então, o corpo precisará reorganizar-se a fim de conseguir cumprir esta tarefa de modo adequado. Do ponto de vista osteomioarticular, os ajustes que o sistema nervoso impõe ao corpo em função da necessidade de manter o equilíbrio geral, nem sempre favorecem o melhor alinhamento desse sistema tanto morfologicamente como funcionalmente durante a sua realização. O simples fato de submeter o corpo a um agente estressor na vigência de um sistema postural desalinhado, acarretará a sobrecarga de algumas estruturas e subutilização de outras.
Com base nesses fatos, a importância da orientação adequada aumenta nos pacientes sedentários, em particular nas mulheres menopausadas e nas muito idosas.
Durante o envelhecimento existem mudanças em todas as etapas do controle postural desde as alterações osteomioarticulares até as deficiências dos sistemas sensoriais, todas predispondo o idoso à instabilidade postural e aumentado o risco de queda.
As quedas constituem a maior causa de lesões graves, comorbidades e morte em pessoas acima de 65 anos de idade. É uma causa comum de admissão hospitalar de idosos com enormes custos econômicos e sociais. Por isso, a prevenção das quedas nos idosos é de importância fundamental nesse grupo populacional.
Apesar das quedas serem eventos comuns e frequentemente trágicos entre indivíduos idosos, não constituem episódios inevitáveis do envelhecimento porque podem ser prevenidas.
Cabe ao ginecologista como médico primário compreender que muitas das manifestações dolorosas e manifestações de alterações do controle motor apresentadas pelas pacientes e muitas vezes desprezadas na anamnese, estão freqüentemente relacionadas a alguma alteração postural e são expressões adaptativas do controle motor.
As expressões adaptativas do controle motor para a postura sofrem influência direta das modificações fisiológicas e patológicas que acometem as pacientes.
O fator preventivo deve ser enfatizado pelo ginecologista, no sentido que as pacientes abandonem o sedentarismo. Dessa forma, o ginecologista estará intervindo em um dos principais fatores promotores da saúde.
E muito importante a atuação do ginecologista no sentido de verificar as queixas secundárias apresentadas pelas pacientes em sua avaliação clínica e encaminhá-las conscientemente para uma avaliação fisioterápica quando os sintomas são recidivantes ou prejudicarem as atividades da vida diária da paciente ou mesmo se houver interesse preventivo por parte da paciente em realizar alguma atividade física.
A orientação da atividade física, considerando os pontos expostos acima, deve ser feita por um fisioterapeuta competente após a devida avaliação fisioterápica, porque essa orientação poderá estar inserida no contexto de um tratamento corretivo para alguma alteração postural e no contexto de melhor performance músculo-esquelética para as pacientes não sedentárias. Nesse caso, um personal trainer trabalhando em conjunto com o fisioterapeuta poderá otimizar o resultado de seu trabalho, tanto preventivo como corretivo da postura.






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